A vida te engole

Luana Ferreira


Os pais da minha melhor amiga morreram. Eram novos, mas com graves problemas de saúde. Em janeiro de 2020 ela se foi e em outubro chegou a vez dele. Eu quis muito consolar a minha amiga e estar com ela quando e como ela quisesse. Morreram em plena pandemia do Covid-19, num momento de restrições para a entrada de pessoas em velório, enterro e missa. Fui vê-la.

Ela, muito abalada, diz de tudo que não foi dito a tempo. Diz do remorso e até da raiva por não ter pensado e conversado com os pais como queria. E a única coisa que me vinha à cabeça era: a vida te engole. Sabe aquela música da Ana Vilela, Trem Bala, que fez grande sucesso justamente por dizer como aproveitar a vida? Sabe por que ela fez sucesso? Muitas vezes, está longe do domínio das pessoas, viverem a vida com consciência, viverem a vida acolhendo as relações, viverem a vida reconhecendo emoções, viverem a vida com respeito ao tempo. A música fala de tudo aquilo que queríamos viver, mas, como a vida te engole.


Aos 20 anos eu li um livro de Psicologia e me tocou o depoimento de uma mulher que se descobriu dona de sua vida aos 40 anos. E me lembro de pensar: ainda bem que estou refletindo sobre isso aos 20. Hoje, perto de fazer 40 anos, penso: por que não li aquele livro mais vezes? A gente precisa estar atenta e em vigília, porque, amiga, a vida te engole e você nem percebe.


A gente recusa convite, desmarca encontro, cancela viagem, evita a conversa… por quê? E se antes de furar o combinado, a gente avalie o quão de vida está nesta decisão, o quão de vida está nas definições de prioridade e se somos realmente donas da nossa rotina.

A prioridade, claro, perpassa por todas as obrigações de uma sociedade baseada na produção e no consumo e no desejo de pertencer à classe média, com acesso a um mínimo de conforto. Mas ela, a prioridade, não deveria se distanciar do pulsar da vida, da alegria da autenticidade, do prazer do encontro.


Imagina que louco a gente tomar parte do dia para resolver relacionamentos, se declarar para as pessoas, fugir para a cachoeira, dormir até mais tarde, ter aquela conversa com o irmão, fazer perguntas difíceis para os pais, resolver, esclarecer, não deixar morrer … se isso acontecesse, Ana Vilela teria que criar outra letra, porque Trem Bala seria óbvia demais.

Mas, de certo, tudo tem mesmo dois lados. Se o positivo de viver a autenticidade é ter conexão consigo mesma, ter espaço para experimentação e ter consciência, o negativo é a solidão. Por que, quem consegue viver dessa forma e não ser taxado de utópico – ou até louco? O trabalho berra, a criança demanda, o status precisa ser alimentado, a produtividade precisa estar em alta. E aí, o que você faz?

A vida te engole.



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